Mulheres por trás do restauro: histórias de técnica, sensibilidade e propósito - Elysium Sociedade Cultural

Neste Dia Internacional da Mulher, conheça a história de três profissionais que fazem história resgatando o patrimônio cultural brasileiro  

No Dia Internacional da Mulher, 8 de março, a Elysium Sociedade Cultural reforça o reconhecimento a quem está além dos projetos executivos e das fachadas restauradas. Por trás de cada diagnóstico estrutural e cada decisão técnica, há mulheres que pesquisam, lideram, aprendem e transformam o setor cultural, que protege e restaura patrimônios históricos. Arquitetas, engenheiras, historiadoras e operárias que atuam diretamente em obras emblemáticas e que compartilham não apenas conhecimento, mas também experiências marcadas por memória, pertencimento e responsabilidade social.

Para homenagear essas mulheres, a Elysium, uma empresa que, na contramão do mercado, tem, em sua maioria, mulheres entre seus colaboradores, convidou três profissionais para compartilhar um pouco do seu dia a dia em um canteiro de obras de edifício em processo de restauro.

“Trabalhar com patrimônio é um exercício de escuta”

Jessica Marques, arquiteta da Elysium, conta que sua relação com o restauro começou ainda na graduação. “Foi nesse período que conheci e compreendi que a preservação, reabilitação e restauração são o principal alicerce de preservação da memória e da sustentabilidade”. Ela contou que, nesse período, participou de um programa de mobilidade acadêmica na Universidade de Coimbra e que essa experiência ampliou profundamente seu olhar sobre o patrimônio cultural. “Trabalhar com patrimônio passou a ser, para mim, um exercício de escuta, respeito e responsabilidade com aqueles que vieram antes”, afirma.

Mestre em Conservação e Restauração de Monumentos e Núcleos Históricos pelo CECRE-UFBA, Jessica coordena projetos de restauro na instituição, com foco em gestão e valorização do conhecimento coletivo. “Mais do que falar sobre cultura, a Elysium promove cultura com significado, dignidade e inovação, sempre com uma abordagem centrada no ser humano e conectada à educação patrimonial e às populações locais”, destaca.

Marques pontua que os desafios técnicos são muitos. “No Palacete Tira-Chapéu, por exemplo, o trabalho envolveu uma pesquisa histórica aprofundada, leitura das transformações ao longo do tempo e definição de diretrizes que permitissem recuperação contemporânea sem a descaracterização do prédio histórico. Já no Jockey Club de São Paulo, a restauração dos salões exigiu ‘extremo rigor técnico’ na recuperação de elementos decorativos do art déco, conciliando preservação formal e adequações ao uso atual”.

Jessica também destaca o trabalho realizado nas Ruínas da Igreja de São José da Boa Morte, no estado do Rio de Janeiro, onde o foco foi a consolidação estrutural, respeitando a condição de ruína como documento histórico. “Cada intervenção exige diagnóstico preciso, levantamento de danos, exames técnicos e mapas de patologias antes da elaboração do projeto”, explica.

Sobre liderar em canteiros, ainda predominantemente masculinos, ela é objetiva. “Já enfrentei situações em que foi necessário reafirmar posicionamentos técnicos com firmeza. Mas, quando a equipe percebe preparo, comprometimento e coerência, o respeito se estabelece”. Para ela, liderança é uma construção coletiva. “O restauro é profundamente colaborativo. Ninguém faz sozinho”, afirma.

Restaurar é devolver significado

A arquiteta Amanda Theodoro iniciou sua trajetória no restauro ainda na graduação, inspirada pelo convívio diário com o conjunto histórico da cidade de Goiás. “Comecei a me interessar por restauro muito por causa do contato direto com uma cidade histórica, onde ficava meu campus”, conta.

Ela ingressou na Elysium como estagiária e viu o interesse se transformar em propósito acadêmico. O tema virou Trabalho de Conclusão de Curso e deve seguir para o mestrado. “O amor pela área só cresceu”, afirma.

Para Amanda, restaurar é compreender que as edificações carregam narrativas. “As construções são mais do que uma estrutura física. Existe uma história por trás que, muitas vezes, é até mais importante do que os próprios materiais.” Ela acredita que esse olhar atento ao invisível, às camadas simbólicas e afetivas, é uma marca importante da presença feminina na área.

Para ela, no dia a dia, o desafio está em transitar entre contextos históricos distintos. “Cada projeto é muito individual. É preciso se atentar aos detalhes e ao significado que cada bem tem para a comunidade, ou seja, para as pessoas que vão usufruir daquele patrimônio.”

No canteiro de obras, Amanda também já percebeu que, por ser mulher, precisa se posicionar com ainda mais firmeza. “Muitas vezes existe o receio de ser subestimada. Então, a solução acaba sendo estudar mais o projeto, entender melhor outras áreas e os processos da obra, para estarmos preparadas para argumentar com propriedade.” Para ela, isso impulsiona um aprendizado constante.

Ao falar sobre o futuro do patrimônio no Brasil, Amanda chama atenção para a necessidade de educação patrimonial. “Não basta restaurar. Se a população não reconhece o valor da permanência daquele bem, ele provavelmente vai se degradar novamente.” Por isso, defende a contrapartida social como instrumento de conscientização e fortalecimento do pertencimento.

Seu conselho às jovens arquitetas é simples e direto. “Se você olha para um edifício e sente vontade de entender a história por trás dele, descobrir como surgiram os elementos escolhidos e por que ele é daquela forma, você já tem meio caminho andado”, afirma.

Mãos à obra 

Na obra da Casa Bernardo Élis, em Goiânia, a operária Marisa Menaides vive o restauro como uma experiência pessoal e profissional transformadora. “Para mim foi um prazer. Está sendo muito emocionante fazer o restauro dessa casa-museu”, relata.

Ela conta que a rotina da obra começa com a organização do espaço de trabalho. Em seguida, são feitos os registros fotográficos e a análise cuidadosa das superfícies. Marisa explica que, diferentemente de uma obra convencional, o restauro exige respeito absoluto à integridade do bem. “Tem que ver as mesmas cores, como eram, para manter a mesma forma depois de restaurado”, afirma.

Marisa faz questão de destacar que o processo é diferente da construção civil tradicional. “Enquanto a obra convencional busca padronização, a restauração é uma intervenção ético-cultural. Analisa a trajetória do objeto no tempo, buscando não apagar ou deformar os traços do passado.”

Para ela, o momento mais marcante da obra até agora foi o contato com o acervo preservado no local. “A quantidade de livros que o museu preserva me emocionou. Ali está a história de Goiânia.” Para ela, restaurar a casa é contribuir para que a memória permaneça viva. “Os goianos precisam visitar depois de restaurada, conhecer e guardar essa história.”

As histórias dessas três mulheres revelam que o restauro é, ao mesmo tempo, ciência, técnica e sensibilidade. É pesquisa histórica, levantamento de danos e mapas de patologias, mas também é escuta ativa, pertencimento e compromisso social.

No fim, como elas próprias definem, restaurar não é congelar o tempo. É permitir que o patrimônio recupere sua relevância social e continue produzindo sentido. É prolongar a vida dos edifícios e, com eles, das histórias que moldam a identidade coletiva.

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