Coletânea organizada pela equipe Elysium resgata contos inéditos de Domingos Felix - Elysium Sociedade Cultural

Textos guardados durante décadas foram reunidos por Maria Lúcia Felix Bufáiçal, filha do autor

Décadas após terem sido escritos e guardados em arquivos pessoais, textos inéditos de Domingos Felix de Sousa ganharam circulação em livro. A coletânea Contos e Outros Escritos reúne mais de 20 narrativas até então desconhecidas do público. São pensamentos de um escritor que exerceu influência sobre diferentes gerações de autores. Ao organizar, editar e trazer à tona manuscritos e textos datilografados, a equipe Elysium produziu um volume que mostra novas camadas da produção do escritor que sempre foi um grande incentivador das artes.

Chefiada pelo pesquisador Wolney Unes, diretor-técnico da Elysium Sociedade Cultural, a equipe organizou uma coletânea que é resultado de um cuidadoso trabalho de digitalização, revisão e edição conduzido pela instituição, que acumula mais de 35 anos de atividades. Publicado pela Editora UFG, o livro foi lançado em 2023, durante evento realizado na sede da Academia Goiana de Letras, em Goiânia.

O ponto de partida da obra foi a descoberta de um conjunto de textos guardados durante vários anos no acervo pessoal de Domingos. A reunião do material foi feita pela escritora Maria Lúcia Felix Bufáiçal, filha do autor, que levou os achados à Editora UFG. Quando o diretor da Editora UFG à época, prof. Anselmo Pessoa Neto, recebeu o material das mãos de Maria Lúcia, pensou imediatamente na Elysium. “Para o trabalho de pesquisa e editoração e tudo o mais que um bom livro requer, não há outra equipe com a qualidade da Elysium”, afirma o prof. Anselmo. “A única etapa que fizemos na editora foi o projeto gráfico, inclusive a capa, pela nossa designer, Ilíada Damasceno”, completa Anselmo.

A partir daí, foi montada equipe de pesquisa, edição e organização pela Elysium. “Dos mais de 30 fragmentos encontrados, foram selecionados mais de 20 contos inéditos. Eram manuscritos e datilografados”, relata o diretor-técnico da Elysium.

A partir desse material bruto, a equipe da Elysium estruturou o processo editorial. A digitalização contou com o trabalho de Lucca Duarte e Maria Unes, enquanto a revisão ficou a cargo de Poliana Queiroz. O cuidado técnico e o rigor no tratamento dos textos foram fundamentais para transformar fragmentos dispersos em uma obra coesa e pronta para publicação.

“Quando Maria Lúcia nos mostrou esse material, ficamos maravilhados. Logo disse: ‘Isso é ouro puro!’”, afirma Unes, destacando que a reunião dos textos ocorreu em 2021, com publicação no ano seguinte.

Um escritor à frente do seu tempo
Mais do que recuperar textos inéditos, a coletânea mostra o caráter singular da escrita de Domingos Felix de Sousa. Segundo Wolney Unes, o autor conseguiu, como poucos, romper com uma tradição de temática regionalista bastante presente na literatura goiana. “A grande questão da literatura de Goiás é que a maioria insiste em ficar restrito à temática regional, falar sobre pequi, sobre os animais do Cerrado. Isso começou lá atrás, com Hugo de Carvalho Ramos, seguindo com Bernardo Élis. E pouquíssimos romperam essa barreira da temática, falando sobre a humanidade, o mundo, o sentimento humano. O mais conhecido é José J. Veiga, de Corumbá de Goiás, conterrâneo e contemporâneo de Bernardo Élis. E, para nossa surpresa, o Domingão, como Domingos era carinhosamente chamado por muitos. Isso torna as escritas ainda mais fantásticas. Ele não fala apenas das plantas e bichos de Goiás, ele fala da alma humana”, diz.

Apesar da produção consistente, Domingos Felix de Sousa não chegou a se consolidar como autor publicado em vida. Ainda assim, exerceu forte influência no meio intelectual. “Domingos era uma figura interessante porque ele era visto como um consultor, conselheiro. Todo mundo em Goiás que se dedicava às artes, especialmente à literatura, ia atrás dele para pedir dicas, opinião. Era uma espécie de crítico informal. Ele escrevia em jornais, mas nunca tinha publicado um livro dele”, explica Wolney Unes. A exceção foi um livro de poemas publicado sem seu conhecimento. “Ele descobriu e acabou destruindo a edição. Então esse livro de poemas dele é muito raro. Valioso mesmo.”

Memória preservada
A iniciativa de reunir os escritos também atende a um antigo desejo de amigos e familiares. A filha do autor, Maria Lúcia Felix Bufáiçal, relata que havia uma cobrança recorrente pela organização da obra de Domingos. “Vários amigos de meu pai, antes e depois de seu falecimento, passaram a cobrar uma reunião de seus textos dispersos em diferentes publicações, como na Revista Oeste, suplementos literários, prefácios e críticas. Muitos publicaram depoimentos sobre ele, que ainda guardo e poderia, quem sabe um dia, vir a reuni-los em livro”, revela. Sobre a coletânea montada a partir dos contos encontrados por ela, Maria Lúcia define o trabalho como “primoroso”. “Realmente muito bom, feito com cuidado e respeito por meu pai e sua trajetória na literatura”, avalia.

Nascido em Jaraguá (GO), em 23 de janeiro de 1923, Domingos Felix de Sousa teve formação sólida. Cursou o ginásio em Silvânia, estudou Filosofia em Cuiabá e formou-se em Direito no Rio de Janeiro. Atuou como professor em Goiânia da Escola Técnica Federal de Goiás e do Atheneu Dom Bosco, além de ter participação relevante nos projetos de criação da PUC Goiás e da Universidade Federal de Goiás. Também foi cronista esportivo do jornal Última Hora, demonstrando versatilidade intelectual. Faleceu em 19 de setembro de 2012, aos 89 anos.

“A coletânea Contos e Outros Escritos é mais um exemplo do papel da Elysium como agente ativo na preservação da memória cultural goiana, neste caso literária. Atuando nas etapas do processo, da organização ao preparo editorial, nós conseguimos evidenciar para o público um autor que, até então, permanecia restrito a pequeno círculo de admiradores”, arremata Wolney Unes.

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