Jessica Marques é coordenadora dos projetos de restauro da Elysium e fala dos desafios de ser mulher em uma área ainda predominantemente masculina
Atuar com preservação do patrimônio histórico é assumir um compromisso com a memória coletiva. Ao longo da minha trajetória, compreendi que restaurar um edifício histórico é, antes de tudo, um exercício de responsabilidade social. Não trabalho apenas com estruturas físicas, mas com camadas de memória, afetos e significados que atravessam gerações.
Cada projeto me exige sensibilidade para entender o que realmente deve ser preservado e como devolver aquele espaço à comunidade de forma íntegra e respeitosa. Quando entrego uma obra restaurada, sinto que estou contribuindo para fortalecer o sentimento de pertencimento das pessoas à sua própria história.
Também reconheço que minha formação e minha atuação são profundamente influenciadas por mulheres que dedicaram suas vidas ao estudo do patrimônio. Elas moldaram minha maneira de pensar e agir na arquitetura.
O mercado do restauro, assim como o da construção civil, ainda é predominantemente masculino, especialmente nos canteiros de obras. Liderar nesses espaços exige clareza técnica, segurança nas decisões e respeito mútuo. Ao longo da minha carreira, já foi necessário que eu reafirmasse posicionamentos com firmeza. A experiência me mostrou, no entanto, que preparo e coerência constroem credibilidade. O respeito se estabelece quando há domínio técnico e compromisso com o resultado.
Ocupar espaços de liderança no patrimônio histórico não significa reivindicar protagonismo pelo gênero, mas afirmar a excelência técnica e a capacidade de diálogo.
Percebo que a presença feminina nesse campo tem se fortalecido não apenas pelo aumento numérico, mas pela qualidade das contribuições. Muitas das principais referências acadêmicas e profissionais da preservação no Brasil são mulheres que abriram caminhos e consolidaram metodologias. A transformação da prática ocorre por meio da competência, da consistência e da capacidade de conduzir processos colaborativos, características fundamentais em intervenções que envolvem múltiplos saberes.
Restaurar não é congelar o tempo. Restaurar, para mim, é um exercício permanente de escuta, análise e responsabilidade histórica. É permitir que o edifício recupere funcionalidade e relevância social, tornando-se novamente espaço de convivência, cultura e memória. Quando um bem histórico reabre as portas, fortalece o sentimento de pertencimento e contribui para a dinamização urbana.
Para as jovens arquitetas que desejam atuar na área, a recomendação é investir em formação sólida, buscar boas referências e cultivar a disposição para aprender continuamente com livros, profissionais experientes, mestres de obras e artesãos. O restauro é, por natureza, uma prática coletiva.
Preservar é prolongar a vida dos edifícios e das histórias que eles guardam. E essa responsabilidade deve ser compartilhada, com competência e compromisso, por mulheres e homens. Sem distinção. A cultura é um espaço coletivo para todos.
Jessica Marques, arquiteta e coordenadora dos projetos de restauro da Elysium Sociedade Cultural
