Restaurar é reativar memória - Elysium Sociedade Cultural

Restaurar uma casa histórica nunca significa apenas consertar paredes. No caso da residência do escritor Bernardo Élis, em Goiânia, o trabalho envolve devolver à cidade um espaço de convivência entre literatura, arquitetura e memória afetiva.

Toda casa guarda marcas de quem a habitou, mas algumas guardam também parte da identidade cultural de uma comunidade. A Casa-Museu Bernardo Élis não é somente o lugar onde o escritor viveu seus últimos anos com sua família; é onde escreveu, recebeu amigos, organizou livros e construiu vínculos com a cultura goiana. Quando o visitante atravessa a porta, ele não entra apenas em um edifício, entra em uma narrativa.

Com o passar do tempo, a edificação passou a apresentar problemas típicos de conservação. A cobertura, principal elemento de proteção do imóvel, sofreu infiltrações prolongadas. Em patrimônio, a água é quase sempre o maior inimigo: deteriora madeiras, mancha superfícies, compromete instalações e, sobretudo, ameaça o acervo. Assim, a prioridade técnica do restauro tornou-se garantir a estanqueidade do conjunto, recuperando telhas, estrutura e sistemas de drenagem.

Diferentemente de imóveis coloniais, a casa foi construída no final do século XX. Isso exige uma abordagem própria. Não se trata de reconstruir técnicas desaparecidas, mas de conservar corretamente sistemas ainda utilizados hoje, respeitando a autenticidade dos materiais. O objetivo não é deixar a casa nova, mas íntegra, capaz de envelhecer com dignidade e continuar contando sua história.

Outro desafio essencial é proteger o acervo durante a obra. Livros, quadros e objetos pessoais são temporariamente removidos e acondicionados para evitar danos por poeira, vibração e umidade. Restaurar um museu significa cuidar simultaneamente do continente e do conteúdo, mantendo a relação indissociável entre arquitetura e memória.

Esse trabalho só é possível por meio de uma rede de colaboração. O projeto é realizado pela Elysium Sociedade Cultural com recursos do Programa Goyazes, do Estado, com patrocínio da Equatorial Goiás. Trata-se de um modelo importante de preservação: o poder público cria os mecanismos de incentivo, a iniciativa privada viabiliza o investimento e a sociedade recebe de volta um bem cultural recuperado.

Restauro bem executado não congela o tempo; ele reativa o uso. A casa não deve ser apenas lembrança, mas espaço vivo de leitura, visitação e educação patrimonial. Quando um bem cultural volta a receber pessoas, recupera sua função social, e é nesse momento que a preservação deixa de ser técnica para se tornar experiência coletiva.

Preservar patrimônio é uma decisão sobre o futuro. Ao restaurar a Casa-Museu Bernardo Élis, Goiânia reafirma que sua história literária não pertence apenas ao passado, mas continua participando da vida cotidiana. Toda comunidade que mantém viva sua memória constrói, ao mesmo tempo, sua identidade. A Elysium Sociedade Cultural tem orgulho de fazer parte da reconstrução de tantas histórias e memórias da cultura brasileira.

Wolney Unes, diretor-técnico da Elysium Sociedade Cultural

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