Ruínas de Igreja construída no século 18 viram símbolo de preservação histórica no interior do Rio - Elysium Sociedade Cultural

 Tombada pelo Inepac, Capela de São José da Boa Morte guarda memórias de acontecimentos históricos no município de Cachoeiras de Macacu, tendo sido cenário de casamentos, batismos, sepultamentos e de lutas camponesas

Cachoeiras de Macacu, município do interior do Rio de Janeiro, ganha um novo capítulo em sua história a partir deste ano. Um trabalho de preservação das ruínas de uma Igreja construída no século 18 promete ser um símbolo nacional de cuidado e proteção ao patrimônio histórico e à memória coletiva. A Capela de São José da Boa Morte, de 1734, está passando por um processo de consolidação e requalificação. Ainda neste ano de 2026, serão inaugurados no espaço um centro comunitário e um espaço cultural, abertos à visitação.

A história em torno das ruínas ocupa o imaginário coletivo da região. Ela foi um importante espaço religioso e histórico da cidade, tendo sido cenário de batismos, casamentos e sepultamentos até o século 19. Desde 1989, é tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac).

As obras de intervenção tiveram início em 2025, com projeto conduzido pela Elysium Sociedade Cultural, em parceria com a Prefeitura de Cachoeiras de Macacu e a Nova Transportadora do Sudeste (NTS), por meio da Lei de Incentivo à Cultura. O investimento é de R$ 18 milhões. “Este é um projeto que preserva e dinamiza um ativo cultural importante da região, que já foi cenário de inúmeros acontecimentos”, afirma Wolney Unes, diretor da Elysium Sociedade Cultural.

Todas as intervenções são alinhadas à preservação, sustentabilidade e valorização da história do local, com ações que vão desde o reforço estrutural até a criação de um mirante que vai permitir que os visitantes tenham uma nova perspectiva da igreja. “A ideia é criar um espaço de contemplação que ofereça ao visitante uma nova visão do conjunto, sem interferir na estrutura original”, explica o engenheiro Pedro Carim, responsável técnico pela obra.

A arquiteta Jéssica Marques acrescenta que o trabalho foi planejado para preservar ao máximo a autenticidade das ruínas. “Cada ação é feita de forma controlada, garantindo que nada seja perdido nesse processo”, destaca.

Erick Pettendorfer, CEO da NTS, afirma que a iniciativa busca também deixar um legado para a população local. “Ao investir na conservação de bens culturais nos territórios onde atua, contribuímos para proteger a memória coletiva, valorizar a identidade local e fortalecer o vínculo das comunidades com sua própria história”, destaca.

Uma nova história

Cachoeiras de Macacu é uma cidade do interior do Rio, com quase 57 mil habitantes, segundo o último censo feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O entorno das ruínas é cortado pelo Rio Macacu, e se destaca como destino para amantes do ecoturismo e esportes radicais, atraindo praticantes de trekking, montanhismo e rapel em meio a cenários naturais atravessados por picos e cachoeiras.

A expectativa é de que, com a inauguração das ruínas, o turismo local seja impulsionado, atraindo pessoas de municípios do Rio de Janeiro e também de outros estados. “São José faz parte da rota Cenários e Sabores da cidade, uma experiência que une turismo rural, ecológico e gastronômico. Além disso, integra o circuito de ciclismo do Estado. Com o projeto, certamente a região, que já é muito frequentada pelos turistas, será ainda mais ativada”, acredita Paulo Schiavo Junior, secretário de Sustentabilidade, Clima, Recursos Hídricos, Ecossistemas e Projetos Estratégicos de Cachoeiras de Macacu.

A intervenção nas ruínas traz ainda uma reflexão profunda sobre a importância do patrimônio como interlocutor entre as gerações. “Ela é uma ferramenta de interpretação do passado e conexão com o futuro. Para o presente, entregamos um conhecimento valioso sobre as formas de construir dos séculos anteriores, da trajetória do território e do vínculo com a comunidade. Para o futuro, deixamos um exemplo de como preservar esse tipo de patrimônio, fortalecendo a sensibilidade do olhar e o sentimento de pertencimento ao patrimônio e às histórias, imateriais, que ele guarda”, acredita Rachel Wider, historiadora, especialista em Patrimônio Cultural e colaboradora da Elysium.

Rachel lembra que a primeira versão da igreja era extremamente simples. Em 1734, sua estrutura inicial foi construída em pau a pique, técnica tradicional feita com barro e madeira. Anos depois, em 1758, o local já contava com pia batismal. Segundo ela, um sinal de que a comunidade começava a se consolidar ao redor da capela. “Pouco tempo depois, em 1768, foi benzido o cemitério, inicialmente com seis sepulturas e, em 1772, outras seis foram autorizadas. Parte dos enterros acontecia dentro da própria igreja, prática comum na época. Quanto mais próxima do altar a sepultura, maior o prestígio social do falecido e, segundo a crença, maiores seriam suas chances de salvação no juízo final”, conta.

Os registros encontrados durante toda a pesquisa documental mostram que a história por trás da Capela de São José de Boa Morte estava perdida no passado. Com o projeto de consolidação e requalificação de suas ruínas, ela ressurge como um espaço que, ao mesmo tempo, resgata a memória dos séculos passados e começa a contar uma nova história sobre o tempo presente.

Fotos: Igor Holderbaum

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