Centro de Referência e edifício administrativo foram projetados com arquitetura contemporânea, gabarito baixo e materiais que dialogam com a antiga capela sem competir com o patrimônio histórico
Respeitar a história sem abrir mão da arquitetura contemporânea foi o princípio que guiou a requalificação das Ruínas da Igreja de São José da Boa Morte, em Cachoeiras de Macacu, na Região Serrana do Rio de Janeiro. Em fase de conclusão, o projeto incorpora um Centro de Referência e um edifício administrativo, concebidos para valorizar o protagonismo da antiga Capela de São José da Boa Morte, construída em 1734 e tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) desde 1989. Os trabalhos de consolidação das ruínas são realizados pela Elysium Sociedade Cultural, em parceria com a Prefeitura de Cachoeiras de Macacu e patrocínio da Nova Transportadora do Sudeste (NTS), por meio da Lei de Incentivo à Cultura.
“A ideia dos anexos que compõem o Complexo das Ruínas da Boa Morte nasceu com o propósito de respeitar o patrimônio histórico e garantir que a antiga capela permanecesse como protagonista da paisagem”, explica a arquiteta Jessica Marques, integrante da Elysium e uma das responsáveis pelo projeto. Para alcançar esse objetivo, as novas edificações foram projetadas em escala reduzida. “Todas as decisões de projeto buscaram preservar essa leitura, resultando em edificações térreas, de gabarito baixo e com implantação cuidadosamente planejada para ocupar o mínimo possível do terreno, sem competir com a ruína”, acrescenta ao citar que os espaços serão destinados a exposições, celebrações comunitárias e workshops.
A proposta arquitetônica também evita reproduzir elementos históricos. Em vez disso, adota uma linguagem contemporânea, marcada por linhas retas, formas simples e volumes discretos, estabelecendo um diálogo entre o antigo e o novo. A implantação aproveita os desníveis naturais do terreno, permitindo que as construções se integrem à paisagem e reduzindo a necessidade de intervenções na topografia.
A escolha dos materiais seguiu a mesma lógica. De acordo com Jessica Marques, “a intenção não foi mimetizar com o edifício histórico, mas criar uma continuidade visual, especialmente em relação às cores e às texturas, além da própria materialidade, permitindo que as novas edificações dialogassem com o patrimônio de forma sensível, evidenciando, ao mesmo tempo, que pertencem ao presente”.
Os cobogós também fazem parte da solução arquitetônica. Além de favorecerem a ventilação e a iluminação natural dos ambientes, contribuem para a leveza das fachadas e criam efeitos de luz e sombra sem desviar a atenção da antiga igreja. “Em todas as escolhas, a palavra de ordem foi respeito: respeito à história, à paisagem, à memória do lugar e à importância de preservar o protagonismo das Ruínas da Boa Morte para as futuras gerações”, afirma a arquiteta.
As Ruínas da Boa Morte são consideradas um dos principais símbolos históricos de Cachoeiras de Macacu. A antiga igreja foi cenário de batismos, casamentos e sepultamentos até o século XIX e guarda registros da formação da comunidade na região. As obras de consolidação e requalificação tiveram início em 2025. O entorno do monumento, às margens do Rio Macacu, integra rotas de turismo rural, ecológico e gastronômico, além de circuitos de ciclismo e atividades de ecoturismo.
