Elysium eterniza histórias em livros e já reúne mais de 150 publicações - Elysium Sociedade Cultural

Com linha editorial criada em 2012, instituição publica obras que registram patrimônios, personagens, pesquisas e manifestações culturais, com atenção especial à produção do Brasil Central

Há histórias que poderiam desaparecer com o tempo se não fossem registradas. Técnicas de restauração recuperadas após décadas de esquecimento, manuscritos guardados por familiares, trajetórias de artistas pouco conhecidos e manifestações culturais fora dos grandes centros estão entre os conteúdos que a Elysium Sociedade Cultural transformou em livros ao longo dos últimos 14 anos.

Desde 2012, quando criou sua própria linha editorial, a instituição já editou e disponibilizou mais de 150 publicações, ampliando sua atuação para além da preservação e valorização do patrimônio material. O catálogo reúne obras de ficção e não ficção e percorre temas como literatura, poesia, memória, música, artes visuais, arquitetura, restauração, patrimônio, crítica e produção técnica.

Para o diretor-técnico da Elysium, Wolney Unes, publicar é também uma forma de garantir que conhecimentos e histórias atravessem gerações. “O registro em livro, a gente entende que é uma forma de, primeiro, registrar e documentar tudo que foi feito dentro de uma ação, e segundo, multiplicar e dinamizar a divulgação disso”, afirma. 

A experiência começou, segundo ele, com o trabalho de restauração da Igreja Matriz de Pirenópolis, realizado após o incêndio ocorrido no início dos anos 2000. O processo exigiu pesquisas e a recuperação de técnicas antigas que já haviam se perdido. A equipe decidiu então documentar todo o conhecimento produzido durante a intervenção. “A gente pensou: não podemos deixar esse conhecimento se perdendo, vamos registrar. O resultado foi uma publicação que reuniu os processos recriados durante o restauro e informações sobre a história de Pirenópolis. 

O livro ganhou repercussão e, ainda hoje, é utilizado em cursos de pós-graduação nas áreas de arquitetura e restauração”, conta Unes, que também é professor da Universidade Federal de Goiás (UFG).  Um exemplo é o da arquiteta Jessica Marques, que passou a integrar a equipe da Elysium em 2022 e na mesma semana teve uma aula toda baseada no material, no mestrado em restauração da Universidade Federal da Bahia: “Fiquei toda orgulhosa, disse aos colegas que era onde eu trabalhava! Acho que eu não estava ainda entendendo o alcance do trabalho da Elysium”, conta a arquiteta, que atualmente cursa doutorado em Lisboa.

A experiência estabeleceu uma diretriz que permanece na atuação editorial da Elysium: registrar o que foi produzido e ampliar sua divulgação, fazendo com que o conhecimento alcance pessoas que não necessariamente podem estar presencialmente nos locais ou ter acesso direto às pesquisas e aos documentos.

Além dos registros de projetos de restauro 

Com o tempo, a relação da Elysium com os livros ganhou novas dimensões. As publicações deixaram de ser apenas registros de ações de preservação e passaram também a ser concebidas como obras independentes, capazes de revelar personagens e histórias pouco conhecidas. “Eu particularmente gosto muito de livros e literatura, e a gente passou a tratar as publicações não apenas como um apêndice de registro de divulgação, mas como obras em si”, destacou Wolney.

A busca por patrimônios e referências culturais levou a instituição a encontrar documentos e produções que permaneciam praticamente desconhecidos. Um dos exemplos é o material produzido por Tonico do Prado, músico, marceneiro e pintor que trabalhou na ornamentação da Igreja Matriz de Pirenópolis. A Elysium recuperou e publicou um álbum anotado, considerado por Wolney um material de grande interesse histórico e cultural.

Outro caso envolve um casal da Cidade de Goiás. Unes conta que, durante um período de separação, o rapaz teria prometido à noiva que escreveria um soneto por dia enquanto estivesse no Rio de Janeiro. O material foi preservado e posteriormente publicado pela Elysium, a coleção de poemas Trinta Dias. 

A instituição também publicou escritos de Carmo Bernardes, que havia deixado com a filha registros relacionados à sua experiência durante o período do regime militar. O material só deveria ser aberto após sua morte e, anos depois, chegou à Elysium, que realizou a publicação. “São exemplos de uma linha editorial que privilegia documentos, pesquisas e fontes primárias capazes de lançar luz sobre aspectos pouco conhecidos da cultura brasileira”, pontua o diretor. 

Um olhar para o Brasil Central

Wolney reforça que a escolha dos temas tem uma direção clara: valorizar a produção cultural do Brasil Central. “O nosso critério primário é algo ligado à cultura da região. Por que da região? O Brasil Central é desconhecido, é a região invisível do Brasil”. 

A preocupação, segundo Unes, não é apenas com a forma como outras regiões enxergam o Centro-Oeste. “O próprio público local, muitas vezes, desconhece a dimensão do patrimônio cultural existente na região”, afirma.  A reflexão do diretor também está ligada à trajetória de pesquisa desenvolvida na UFG, onde foi criado o Centro de Estudos Brasileiros (CEB), dedicado a pensar o país sob a perspectiva de valorização do patrimônio cultural. “É impressionante que não é só o Brasil que desconhece essa região. Os próprios habitantes daqui do Brasil Central não o conhecem”, afirma o professor. 

Nesse contexto, o catálogo da Elysium reúne pesquisas e publicações relacionadas a personagens como Goiandira, Gustavo Ritter e Jorge Félix de Sousa, além de trabalhos voltados à produção musical do Brasil Central. Para Wolney, não há uma obra que possa ser apontada isoladamente como a mais importante. “Todos, cada um a seu tempo, foram importantes de acordo com o contexto histórico de cada uma”. 

Art Déco 

Entre as publicações mais recentes estão Arquitetura Art Déco no Brasil e Técnica e Arte no Jockey Club de São Paulo, lançadas pela Elysium em 2025. O primeiro livro surgiu a partir de um seminário realizado para marcar os 100 anos do movimento Art Déco. A programação percorreu cidades brasileiras com acervos relevantes – São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Goiânia – e as conferências realizadas durante o projeto deram origem à publicação.

Técnica e Arte no Jockey Club de São Paulo registra seis anos de trabalho desenvolvido no edifício, considerado o maior complexo Art Déco das Américas. A obra reúne o conhecimento produzido durante o processo de preservação. “O Jockey de São Paulo é um conjunto de edifícios superlativos, uma coisa maravilhosa tanto de técnica como de arte”, exulta o diretor. 

Segundo Wolney, o edifício também relembra uma característica construtiva de grande relevância: o vão livre de concreto armado da cobertura é, até hoje, o maior do mundo do gênero, segundo a referência apresentada por ele. 

O livro como memória para o futuro

Para a Elysium, a publicação impressa não concorre com as novas tecnologias, mas complementa as possibilidades de divulgação. A instituição também utiliza a internet para ampliar o alcance de sua produção, mas Wolney destaca uma característica que considera essencial no livro: sua permanência como documento histórico. “O livro a gente sabe, daqui a 200 anos, 400, ele vai estar aí, como registro. A estratégia, por isso, é trabalhar com os dois formatos. Atualmente, sim, tudo que a gente produz em livro a gente tenta jogar para essa esfera digital”, explica.

Ao reunir literatura, memória, música, artes, arquitetura, patrimônio e produção técnica, a Elysium constrói um catálogo que funciona simultaneamente como registro, fonte de pesquisa e instrumento de difusão cultural. São mais de 150 publicações que ajudam a colocar em circulação histórias, personagens e conhecimentos que, nas palavras de Wolney, muitas vezes permanecem fora do olhar das grandes editoras e da grande mídia.

Conheça algumas publicações da Elysium:

  • A Geometria do Ladrilho Hidráulico, de Fátima Macedo
  • Boa Morte, de Idelmar Paiva
  • Papo de Anjo 1 e 2, de Wolney Unes
  • Goiandira: arte e areia, de Wolney Unes
  • Caderno de Tonico do Padre, organização Wolney Unes
  • Dicionário do Brasil Central, de Bariani Ortêncio
  • Xambioá, de Carmo Bernardes
  • A Crítica dos Prefácios, de Gilberto Mendonça Teles
  • Palacete TiraChapéu – Restauro, de Wolney Unes
  • Técnica e Arte no Jockey Club de São Paulo, de Wolney Unes
  • As Ruínas de São José da Boa Morte, organização Wolney Unes

Serviço: 

Informações e aquisição das publicações da Elysium Sociedade Cultural: (62) 3645-0904.

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