Museus de Goiânia ajudam a contar as muitas histórias dos 93 anos da capital de Goiás - Elysium Sociedade Cultural

No aniversário da capital, espaços de memória ajudam a compreender a cidade que nasceu planejada, cresceu entre transformações e construiu sua identidade entre o patrimônio, a arte e a cultura

Goiânia completa 93 anos neste 24 de outubro. Mas contar a história da capital não significa apenas lembrar a data de sua fundação, os nomes de seus pioneiros ou observar os edifícios que sobreviveram ao tempo. A história de uma cidade também está nos objetos que ela preserva, nas fotografias que registram suas mudanças, nas vozes que documentam diferentes épocas e nas obras de arte que traduzem aquilo que seus moradores pensaram, sentiram e criaram.

Nesse sentido, os museus de Goiânia funcionam como capítulos de uma mesma história. Cada instituição preserva uma parte diferente da trajetória da capital e, juntas, ajudam a construir uma narrativa que vai muito além dos acontecimentos oficiais.

O Museu Goiano Zoroastro Artiaga, criado em 1946, foi o primeiro museu de Goiânia. Localizado na Praça Cívica, no coração do conjunto arquitetônico que representa o nascimento da cidade planejada, o espaço reúne peças arqueológicas, mineralógicas, objetos de origem indígena, arte sacra, documentos históricos e elementos relacionados à fauna e à flora do Cerrado. Seu acervo permite compreender não apenas Goiânia, mas o território e as diferentes culturas que antecederam e atravessaram a construção da capital.

Poucos lugares traduzem de maneira tão direta a história política da cidade quanto o Museu Pedro Ludovico. Instalado na antiga residência do fundador de Goiânia, o imóvel preserva móveis, objetos pessoais, documentos e características arquitetônicas que ajudam a reconstruir o cotidiano das primeiras décadas da capital. A casa, construída entre 1934 e 1937 em estilo Art Déco, é também uma espécie de testemunha material do projeto de modernidade que orientou a criação de Goiânia.

Se o Museu Pedro Ludovico permite entrar na intimidade de uma das figuras centrais da fundação da cidade, o Museu da Imagem e do Som amplia essa perspectiva por meio de fotografias, filmes, discos, fitas e gravações. São registros que ajudam a recuperar não apenas os grandes acontecimentos, mas também os sons, as imagens e as manifestações culturais que marcaram diferentes gerações.

Há ainda uma Goiânia contada pela arte. No Museu de Arte de Goiânia (MAG), instalado no Bosque dos Buritis, a trajetória cultural da cidade pode ser observada por meio de obras de artistas que ajudaram a construir a identidade visual de Goiás e do Brasil. Nomes como Siron Franco, Antônio Poteiro, Frei Confaloni, DJ Oliveira e Gustav Ritter fazem parte de um acervo que revela como as transformações da sociedade também encontram expressão na produção artística.

Essa relação entre arte e história ganha outra dimensão no Museu Municipal Frei Nazareno Confaloni, instalado na antiga Estação Ferroviária de Goiânia. O edifício, um dos exemplares mais significativos do Art Déco da capital, guarda ainda os murais produzidos por Frei Confaloni em 1953. O espaço aproxima, assim, arquitetura, patrimônio e arte em um mesmo endereço, uma síntese da própria história cultural de Goiânia.

Mas a memória da capital não se limita à política, à arquitetura e às artes. Ela também está relacionada ao território onde a cidade foi construída. O Museu Antropológico da Universidade Federal de Goiás amplia o olhar sobre a região Centro-Oeste ao reunir objetos, imagens e referências que ajudam a discutir identidades e modos de vida. Já o Memorial do Cerrado apresenta ao público diferentes aspectos da ocupação do território, das comunidades tradicionais e da relação entre sociedade e natureza.

Até mesmo a biodiversidade encontra espaço nessa cartografia da memória. O Museu de Ornitologia José Hidasi preserva uma coleção formada por animais e aves de diferentes partes do mundo e representa outra dimensão do esforço de colecionar, pesquisar e transmitir conhecimento sobre a natureza.

É justamente essa diversidade que faz dos museus espaços tão importantes para uma cidade que chega aos 93 anos. Eles não contam uma única história de Goiânia. Contam várias. Algumas se encontram; outras revelam conflitos, mudanças, esquecimentos e permanências. Há a Goiânia planejada e a cidade que cresceu para além do plano original. Há a capital dos grandes projetos políticos e a cidade do cotidiano de seus moradores. Há o patrimônio arquitetônico, mas também a cultura popular, a produção artística, a memória oral, a natureza e as transformações sociais.

Para Wolney Unes, diretor-técnico da Elysium Sociedade Cultural, preservar esses diferentes registros é fundamental para que uma cidade consiga compreender a própria trajetória.“Uma cidade não é feita apenas de edifícios, ruas e monumentos. Ela é construída também pelas histórias, pelos objetos, pelas imagens e pelas experiências de quem a viveu. Os museus têm justamente essa capacidade de reunir essas camadas de memória e colocá-las em diálogo com o presente. Ao visitar um museu, não estamos apenas olhando para o passado; estamos tentando compreender como chegamos até aqui e que cidade queremos deixar para as próximas gerações”.

A observação ganha ainda mais força em Goiânia, onde patrimônio e modernidade convivem de maneira particularmente evidente. O conjunto Art Déco da Praça Cívica, a antiga estação ferroviária, a casa de Pedro Ludovico e tantos outros espaços preservados são testemunhos de um projeto de cidade que nasceu no século 20 e continua sendo reinterpretado no século 21.

Celebrar os 93 anos de Goiânia, portanto, também pode ser um convite para olhar para esses lugares. Porque uma cidade que preserva sua memória não está presa ao passado. Ao contrário: encontra nele instrumentos para compreender o presente.

Os museus ajudam a fazer justamente essa ponte. Guardam documentos, obras, objetos e imagens, mas seu maior patrimônio talvez seja outro: a possibilidade de fazer com que uma geração reconheça, nas experiências de outras, as raízes da cidade onde vive.

Aos 93 anos, Goiânia tem muitas histórias para contar. E parte importante delas está guardada atrás das portas de seus museus, esperando não apenas ser preservada, mas conhecida, questionada e novamente contada.

 

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