A novela ‘Boa Morte’, obra literária assinada por Idelmar de Paiva e publicada em 2024 pela Elysium Sociedade Cultural, alcança um marco simbólico ao ter a tiragem esgotada apenas dois anos após o lançamento. O feito fortalece a conexão entre literatura, memória e identidade cultural do Brasil Central, elementos que atravessam toda a obra.
Natural de Cumari, no sul de Goiás, Idelmar construiu sua trajetória profissional como auditor fiscal da Receita Estadual, mas foi na vivência cultural que encontrou matéria-prima para o trabalho literário. Ao longo de anos, ele se envolveu com movimentos culturais e com a vida pública na cidade de Goiás, cenário que viria a se tornar o coração de sua narrativa em ‘Boa Morte’.
“Embora não tenha nascido na cidade de Goiás, residi lá por muitos anos. Militei em movimentos culturais e atuei na política. Havia um boato de que existiria um tesouro escondido abaixo dos alicerces da Igreja da Boa Morte, no centro da velha capital. Então desenvolvi uma trama a respeito”, conta o autor.
É a partir desse imaginário, que mistura lendas urbanas e registros históricos, que Boa Morte se desenvolve. A obra mergulha na formação da antiga Vila Boa, nos ciclos do ouro e nos personagens que ajudaram a construir o território, transitando entre mineradores, vaqueiros e contrabandistas.
“O processo de pesquisa e construção foi baseado fortemente na literatura disponível. Fiz muitas pesquisas bibliográficas em tudo que era disponível, tanto no que diz respeito ao surgimento e os primeiros tempos do então Arraial de Santana (depois Vila Boa). Além disso, estudei o processo de formação do povoado de Colônia do Uvá, constituído por imigrantes alemães no início do Século XX”, explica o autor.
Narrativa ágil, memória viva
A recepção do público surpreendeu positivamente o autor. “Está praticamente esgotada a edição. Foi bem recebida pelo público, que considera a narrativa fácil, ágil, envolvente e carregada de um conteúdo histórico relevante.”
Para o diretor-técnico da Elysium, Wolney Unes, o sucesso da obra está diretamente ligado à forma como ela valoriza o Brasil Central. Segundo ele, Idelmar coloca “a cultura, o jeito de viver do Brasil Central como protagonista e retrata o patrimônio edificado”, algo que nasce, conforme pontua Wolney, da vivência do autor na antiga capital.
Wolney também destaca a escolha do formato narrativo. “A obra ‘Boa Morte’ é uma novela. Num romance você tem várias tramas. Uma novela é um evento, um recorte, uma coisa com início e fim.” Essa estrutura mais concentrada contribui para o ritmo ágil apontado pelos leitores.
Processo coletivo
Com mais de 35 anos de atuação e mais de 150 trabalhos publicados, a Elysium Sociedade Cultural tem no cuidado editorial uma de suas marcas. No caso de Boa Morte, o processo seguiu etapas que vão da avaliação inicial ao acabamento gráfico.
“O processo começa com o envio do texto pelo autor para nossa avaliação. Como de costume, ficamos entusiasmados, especialmente pela temática, que tem tudo a ver com o projeto da Elysium. A partir daí, inicia-se um trabalho que leva cerca de seis meses. O material passa por revisão, já que é sempre importante ter um olhar externo, e depois segue para o projeto gráfico. Verificamos tamanhos, dimensões e discutimos tudo com o autor. Nesse caso, inclusive, foi ele quem escolheu a imagem da capa. É todo um processo de negociação até que a obra seja, de fato, publicada”, detalha Wolney.
Para o diretor da Elysium, transformar o trabalho individual do escritor em livro é uma experiência marcante. “É um processo fascinante, de transformar um texto produzido de forma individual, com o autor trabalhando sozinho, em um produto editorial, em um livro, que é, essencialmente, um trabalho coletivo.”
Em texto de apresentação de Boa Morte, Wolney descreve a força narrativa da obra ao destacar que ela “traz à vida personagens da história da ocupação da cidade de Goiás”, combinando realidade e ficção em uma trama marcada por cobiça, inveja e mistério. Segundo ele, ler a novela é “mergulhar na história da ocupação da cidade de Goiás, numa trama de mistério”.
A ambientação histórica, somada ao ritmo enxuto da narrativa, cria uma experiência que aproxima o leitor do passado, não como algo distante, mas como algo vivo. Para Idelmar, ver o livro ganhar forma também foi motivo de satisfação. “Considero o trabalho editorial da Elysium Sociedade Cultural, no livro Boa Morte, de excelente qualidade. Designer bem feito, capa bonita, enfim: dá gosto de manusear e ler.”
A obra se soma a outros títulos do autor, como Caminho Inverso, Água de Pedra e Vagões de Memória, este último dedicado à história de sua cidade natal. Mesmo após uma longa carreira no serviço público, ele segue projetando novos trabalhos no meio literário. “Pretendo continuar escrevendo assim que sobrar mais tempo. Penso em escrever um livro com o título: ‘De Braz Cubas a Braz Ilha’… Vamos ver no que vai dar.”
